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Leo Cunha - Literatura infanto-juvenil
Desde: 22/12/2003      Publicadas: 217      Atualização: 28/05/2015

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 Opinião

  01/04/2012
  0 comentário(s)


Como (não) funciona a literatura infanto-juvenil no Brasil - 13 apontamentos insolentes

Texto que publiquei originalmente no Facebook, no dia 31/03/2012, e agora trago para cá, acrescido de alguns comentários posteriores.

" Pouca gente percebe a diferença entre "livro infantil" e "literatura infantil". Nas livrarias predomina o livro não-literário. Por exemplo: alguém pega 10 imagens congeladas dos episódios dos Backyardigans, descreve sucinta e pobremente cada uma delas e transforma num livro brilhante e de capa dura. Muito fofo, mas a literatura " arte da palavra " passou longe.

" Nada contra os Backyardigans: já assisti muitas vezes com o meu filho, que tem até a fantasia do Pablo (o pinguim azul de gravatinha). Mas os livros...

" Já escrevi cerca de 50 livros de literatura infanto-juvenil. Entro nas livrarias e encontro 2 ou 3, no máximo. O mesmo ocorre com 90% dos escritores. Tenho um livro que está na 20ª edição e nunca flagrei o danado em nenhuma livraria.

" Por que a maioria dos livros de literatura infanto-juvenil não entra nas livrarias? Será que eles não gostam de ler? Infelizmente, o motivo é mais pragmático: não existe uma "demanda natural" pelos livros, que justificaria sua presença no estoque da livraria. A demanda quase sempre resulta de o livro ser "adotado" numa escola.

" O sonho do escritor de literatura infanto-juvenil é ser adotado. Nossos livros não vivem nas livrarias. Vivem num orfanato.

" Quando aparece a tal "demanda natural", o problema está resolvido? Nem sempre. Esta semana a minha filha ficou alucinada atrás do livro Jogos Vorazes 2. Ela já tinha lido o primeiro, emprestado por uma colega, e agora queria o segundo. Não encontrei em nenhuma livraria da cidade. A editora não percebeu o potencial de vendas da série " motivado pela exibição do filme nos cinemas. Ou, se percebeu, errou os cálculos. Uma vendedora da livraria Leitura, do Pátio Savassi, me deu o triste veredito: "estamos perdendo venda o dia inteiro, todos os Jogos Vorazes foram pras livrarias de São Paulo".

" Certa vez, em 1994, na livraria do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, o Roberto Drumond, sem se identificar, pediu à atendente: "você tem aquele livro Hilda Furacão?" A moça procurou, trouxe, e o Roberto tratou de deixar o livro num lugar de grande destaque. Em seguida me explicou: "Você está começando agora, Leo, mas te dou essa lição: brigue por seus livros!"

" Diante do desencontro logístico entre editoras e livrarias, muita gente conclui que o escritor é quem vende os próprios livros. Vira e mexe as pessoas me pedem: "Leo, traz seu livro amanhã que eu quero comprar. Quanto custa?" E se assustam quando respondo que eu não vendo meus livros (aliás, costumo ter apenas 2 ou 3 exemplares em casa, de cada livro, não tenho vocação pra estoquista nem talento pra vendedor).

" Como resultado da mesma conclusão, muitas pessoas, escolas, ongs, associações cooperativas etc escrevem para os escritores pedindo doações dos livros. Quase sempre a intenção é nobre " criar uma biblioteca, um cantinho de leitura, um projeto de leitura " mas os escritores simplesmente não têm estoque nem selos suficientes.

" Como já escrevi uma vez aqui no Facebook, os direitos autorais são o salário do escritor. De cada livro vendido, o escritor recebe 8 a 10%, como direito autoral. Se o livro custa 20 reais, o escritor ganha 2 por livro. Parece pouco? Mas é assim no mundo inteiro. É justo. Injustiça é quando alguém xeroca o livro inteiro e sai vendendo. Aí o escritor não recebe seu salário. Ano passado o escritor Luiz Antonio Aguiar teve um livro adotado para o vestibular e uma gráfica do centro de Belo Horizonte simplesmente fez cópias xerox, na maior cara de pau do mundo, e vendeu milhares de "exemplares" (com capa colorida e tudo), roubando o salário do Luiz.

" Idem ibidem: quando o livro é escaneado e disponibilizado para download na internet, o escritor não recebe seu salário. É inevitável? É a lógica do ciberespaço? Como diria o Raul Seixas, agora é tudo "free"? É mesmo? Então por que muitos sites cobram assinatura ou recebem pagamento de anunciantes, para distribuir "de graça" o salário do escritor?

" A literatura infanto-juvenil, assim como a arte em geral, não está aí para dar lições de moral, cidadania, ecologia, etc. O que é diferente de dizer que ela não está nem aí para a moral, a cidadania e a ecologia. Esses temas podem perfeitamente aparecer nos livros, como aparecem na vida. O perigo é quando o aspecto literário perde a prioridade para o aspecto didático. O bom livro literário é aquele que encanta, que espanta, que assusta, que diverte, que seduz, às vezes tudo isso junto. Aquele que dá vontade de ler de novo e indicar pros amigos.

" A reforma ortográfica eliminou o hífen do simpático termo infanto-juvenil e criou esse monstrengo infantojuvenil. Cada vez que eu leio essa palavra, me lembro de termos médicos compridos como levomepromazina, imunodeficiência, ou a incrível pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose. Saudades do hífen.

E agora alguns comentários que acrescentei posteriormente.

" As crianças pouco frequentam as livrarias no Brasil. Em outros lugares não é assim. Eu acredito que seria maravilhoso as crianças frequentarem mais as livrarias e encontrarem livros de literatura nas livrarias.

" Eu passei minha adolescência praticamente dentro de uma livraria. Quando eu tinha uns 12 anos, minha mãe fundou a Casa de Leitura e Livraria Miguilim, primeira livraria especializada em literatura infantil em Belo Horizonte. A livraria durou uns 15 anos, mais ou menos. E eu frequentava quase diariamente. O acervo era 90% de livros de literatura infantil. Então acredito que é possível e viável sonhar com essa possibilidade. Livrarias e bibliotecas não são (ou não precisam ser) excludentes nem opostas.

" Não somos ingênuos de imaginar que as livrarias carreguem em estoque uma variedade imensa de livros de literatura (literatura mesmo!) para crianças. Seria inviável, claro. Mas também não precisávamos chegar tão perto do extremo oposto, no qual os livros de não-literatura (vide exemplo do livro dos Backyardigans, citado acima, e outros afins) são tão predominantes.

" Sou apaixonado por livrarias e tenho a convicção de que elas poderiam dialogar melhor com o universo da literatura infantil. Entre os muitos fatores que podem contribuir, um deles seria a melhor preparação das equipes. Faz toda diferença quando os profissionais têm conhecimentos sobre o que estão vendendo: o que é literatura infantil? Quais os principais gêneros, formatos, dilemas, qualidades, lacunas?

" Eu tenho comprado muitos livros pela internet, especialmente quando sei exatamente o que procuro. Mas na internet se perde aquela experiência tão saborosa de "fuçar" pelas prateleiras, bisbilhotar as orelhas, as ilustrações, os projetos gráficos, pegar no livro, propriamente, perceber a qualidade do papel e da impressão, dar uma lida aleatória nas páginas, descobrir pérolas ao acaso.
Além disso, adoro o astral das livrarias, gosto de observar a arquitetura delas, como foram pensadas, como os assuntos e gêneros estão distribuídos, o que está ou não em destaque, o que as outras pessoas estão procurando, espiando, lendo. Isso é impagável, numa boa livraria.
  Autor:   Leo Cunha


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